A máquina de costura, ah, a velha Singer. Não era apenas um objeto na sala de estar de Vó Elisa; era o coração pulsante de uma vida inteira. Naquela casa, o silêncio só era quebrado pelo ritmo hipnótico do motor, um canto suave que anunciava a criação, a transformação. Cada peça de roupa que passava pelas suas mãos não era só tecido; era uma história.
Era ali, naquele emaranhado de linhas coloridas, retalhos de algodão e o chiado gentil do pedal, que o mundo de Vó Elisa se expandia. Ela não costurava apenas bainhas e consertava rasgos; ela costurava sonhos. O vestido de formatura da filha, a roupa de batizado do neto, a fantasia de Carnaval para os vizinhos. Em cada ponto, havia um pedaço da sua dedicação, da sua paciência, da sua arte.
As gavetas da mesa da máquina guardavam pequenos tesouros: botões de todas as cores e tamanhos, alguns com a pátina do tempo, outros reluzentes de novo; carretéis quase vazios que contavam segredos de projetos passados; um dedal prateado que se moldava perfeitamente ao seu dedo, um companheiro leal em mil batalhas contra agulhas rebeldes. Ali, naquelas miudezas, estava encapsulada a história de uma artesã.
Quando Vó Elisa se foi, a máquina de costura ficou. Silenciosa, majestosa, esperando. Os netos, antes fascinados pelo balé da agulha e pelo vai e vem do tecido, olhavam para ela com reverência, mas também com um certo temor. Como manusear aquele legado tão pesado e ao mesmo tempo tão delicado?
Mas a herança de uma costureira não se limita a uma máquina de metal e madeira. Ela está nos cheiros que ainda parecem pairar no ar: o amido de engomar, o algodão novo, o linho recém-cortado. Está nas memórias de risadas e conversas que ecoavam enquanto as mãos habilidosas trabalhavam. Está no conforto de um casaco remendado com carinho, na elegância de um vestido feito sob medida.
Um dia, uma das netas, Marina, sentou-se à frente da velha Singer. Tocou o pedal com o pé, hesitante. Girou a roda com a mão, sentindo a inércia do tempo. Pegou um retalho de tecido e uma linha esquecida. E então, com um suspiro que carregava o peso de gerações, ligou a máquina. O motor tossiu, engasgou e, por fim, encontrou seu ritmo. O som familiar encheu o ambiente, e Marina sentiu uma conexão profunda com Vó Elisa.
Não era apenas aprender a costurar; era entender o amor, a
dedicação e a paciência que cada ponto representava. Era carregar adiante não
só um ofício, mas um modo de ver o mundo, de consertar o que está quebrado, de
criar beleza onde antes havia só um pedaço de pano. A máquina de costura de Vó
Elisa não era apenas uma máquina; era um portal para a memória, um monumento ao
poder silencioso da criação e do cuidado. E em cada novo ponto, a história
continuava.
(Gracita Fraga)
Amiga Gracita, feliz ano novo!
ResponderExcluirA Singer fez histórias em nossas vidas. Como contou aqui, recordamos todo ruido bom que ela fazia antes de ser motorizada.
Resta-nos a lembrança como seu conto focou.
Tenha dias abençoados e felizes!
Beijinhos fraternos e festivos
Tão lindo,Gracita!
ResponderExcluirQuem não teve uma vó ou mãe com a Singer fazendo o barulhinho do pedal e depois as costuras prontas.
Muito lindo, adorei te ler!
beijos, tudo de bom,chica
Que beleza de homenagem à arte da costura! A máquina de Vó Elisa é um símbolo poderoso da criatividade e do amor que se entrelaçam em cada ponto
ResponderExcluirAdorei a crônica, Gracita
Beijos
Essa crônica me fez refletir sobre como objetos simples podem carregar tanta história e emoção. A Singer não é apenas uma máquina, mas um elo entre gerações.
ResponderExcluirLindíssima crônica
Beijos
Adorei como você retratou a máquina de costura como um coração pulsante da casa. É fascinante ver como cada peça de roupa tem uma história própria.
ResponderExcluirBeijocas
A forma como a crônica destaca a conexão entre a avó e a neta é tocante. Ensinar a costurar é, na verdade, transmitir um legado de amor e paciência
ResponderExcluirUm abraço
É impressionante como o ato de costurar se transforma em uma metáfora para a vida: consertar, criar e transformar. Uma leitura inspiradora!
ResponderExcluirBeijos
A presença da velha Singer evoca memórias e emoções profundas. A crônica captura perfeitamente o poder da tradição e da herança familiar.
ResponderExcluirUm abraço
Adorei esse conto! A cada palavra fiz uma viagem ao passado, vi minha mãe sentada com os pés no pedal da singer costurando nossos sonhos, nosso futuro e provendo nosso dia a dia.
ResponderExcluirFeliz Ano Novo com bençãos, paz, saúde e felicidade, beijos!