segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Vida cotidiana

 

A Desventura da Goiabeira

Era uma tarde ensolarada, daquelas que parecem feitas sob medida para um piquenique ou, no mínimo, para um dia leve e tranquilo. Tudo conspirava a favor da calmaria. Foi nesse clima que decidi que era o momento ideal para colher goiabas.

 

O pé, carregado e convidativo, balançava ao sabor da brisa suave, prometendo uma colheita farta e suculenta. Goiabadas, geleias e, quem sabe, até um suco fresco já desfilavam pela minha imaginação. Isso é vida!, pensei.

 

Preparei o plano infalível: escada firme, balde pendurado na lateral — assim não perderia tempo nem frutas. Subi os degraus com a leveza de quem revive a infância entre galhos, sorrindo sozinha e contando histórias para ninguém, exceto para a goiabeira, cúmplice silenciosa daquela tarde.

 

Mas a alegria, como goiaba madura, às vezes cai antes da hora.

 

De repente, o mundo virou de pernas para o ar.

Ploft!

 

Uma combinação explosiva de escada, balde e gravidade em desacordo. Encontrei o chão de forma abrupta, enquanto o balde, antes triunfante, transformava-se num verdadeiro projetor de goiabas. As frutas se espalharam pelo gramado como se o céu tivesse decidido chover doçura.


A cena era cômica, não há como negar. Estirada no chão, cercada por goiabas que agora pareciam zombar de mim, só consegui rir da própria desventura. Um vizinho, atônito, hesitava entre ajudar ou se render ao riso.


— Você tá bem? — perguntou, tentando conter as lágrimas provocadas pelo riso.


Respondi entre gargalhadas, fiel ao meu estilo:

— Só me diz que alguma dessas goiabas não tá amassada!


Confesso que, no meio do susto, minha maior preocupação não foi o joelho nem os arranhões. Era os óculos. Apalpei o rosto com cuidado e senti um alívio imediato: ali estava ele, inteiro — um pouco torto, é verdade, mas sobrevivente daquela chuva de frutas.

 

Ali fiquei por um instante, rainha destronada das goiabas, com um sorriso largo no rosto e a certeza de que até as quedas mais inesperadas podem se transformar em bons momentos. A vida, afinal, também se equilibra assim: tropeços, risadas e aprendizados.

 

Você pensa que acabou?

Pois não acabou.

 

Apesar da dor incômoda no joelho e dos arranhões que agora adornavam meu rosto como medalhas de uma batalha frutada, levantei. Reposicionei a escada, firmei o balde e subi novamente. Colhi outro tanto de goiabas, transformando a desventura numa jornada de persistência. O resultado? Bons dois litros de polpa, prontos para adoçar a vida.


Depois de um banho revigorante, não esqueci o principal. Mesmo machucada e sentindo dor a cada passo, fui ao dentista levando a prometida polpa. Cheguei com um sorriso que desafiava os pequenos curativos e a satisfação de ter cumprido minha missão — à moda Gracita de ser.


Algum tempo depois, a goiabeira cresceu demais. Tomei uma decisão sensata: mandei podar, deixando apenas os dois troncos principais. Pensei que ela se aquietaria. Que nada. A danadinha logo se encheu de frutinhas outra vez.


A diferença é que eu aprendi. Hoje colho do chão, armada com um apanhador de frutas de cabo bem longo. A goiabeira continua generosa. Eu, mais prudente, continuo inteira.


Porque não me deixo abater com facilidade. Costumo rir das situações que me acontecem. E a vida, meus amigos, é feita disso mesmo: goiabas que caem, escadas que balançam e a alegria de se levantar, sacudir a poeira e fazer a melhor geleia com o que restou.


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