A Desventura da Goiabeira
Era uma tarde ensolarada,
daquelas que parecem feitas sob medida para um piquenique ou, no mínimo, para
um dia leve e tranquilo. Tudo conspirava a favor da calmaria. Foi nesse clima
que decidi que era o momento ideal para colher goiabas.
O pé, carregado e
convidativo, balançava ao sabor da brisa suave, prometendo uma colheita farta e
suculenta. Goiabadas, geleias e, quem sabe, até um suco fresco já desfilavam
pela minha imaginação. Isso é vida!, pensei.
Preparei o plano infalível:
escada firme, balde pendurado na lateral — assim não perderia tempo nem frutas.
Subi os degraus com a leveza de quem revive a infância entre galhos, sorrindo
sozinha e contando histórias para ninguém, exceto para a goiabeira, cúmplice
silenciosa daquela tarde.
Mas a alegria, como goiaba madura, às vezes cai antes da hora.
De repente, o mundo virou de
pernas para o ar.
Ploft!
Uma combinação explosiva de
escada, balde e gravidade em desacordo. Encontrei o chão de forma abrupta,
enquanto o balde, antes triunfante, transformava-se num verdadeiro projetor de
goiabas. As frutas se espalharam pelo gramado como se o céu tivesse decidido
chover doçura.
A cena era cômica, não há
como negar. Estirada no chão, cercada por goiabas que agora pareciam zombar de
mim, só consegui rir da própria desventura. Um vizinho, atônito, hesitava entre
ajudar ou se render ao riso.
— Você tá bem? — perguntou,
tentando conter as lágrimas provocadas pelo riso.
Respondi entre gargalhadas,
fiel ao meu estilo:
— Só me diz que alguma dessas
goiabas não tá amassada!
Confesso que, no meio do susto, minha maior preocupação não foi o joelho nem os arranhões. Era os óculos. Apalpei o rosto com cuidado e senti um alívio imediato: ali estava ele, inteiro — um pouco torto, é verdade, mas sobrevivente daquela chuva de frutas.
Ali fiquei por um instante,
rainha destronada das goiabas, com um sorriso largo no rosto e a certeza de que
até as quedas mais inesperadas podem se transformar em bons momentos. A vida,
afinal, também se equilibra assim: tropeços, risadas e aprendizados.
Você pensa que acabou?
Pois não acabou.
Apesar da dor incômoda no
joelho e dos arranhões que agora adornavam meu rosto como medalhas de uma
batalha frutada, levantei. Reposicionei a escada, firmei o balde e subi novamente.
Colhi outro tanto de goiabas, transformando a desventura numa jornada de
persistência. O resultado? Bons dois litros de polpa, prontos para adoçar a
vida.
Depois de um banho
revigorante, não esqueci o principal. Mesmo machucada e sentindo dor a cada passo,
fui ao dentista levando a prometida polpa. Cheguei com um sorriso que desafiava
os pequenos curativos e a satisfação de ter cumprido minha missão — à moda
Gracita de ser.
Algum tempo depois, a
goiabeira cresceu demais. Tomei uma decisão sensata: mandei podar, deixando
apenas os dois troncos principais. Pensei que ela se aquietaria. Que nada. A
danadinha logo se encheu de frutinhas outra vez.
A diferença é que eu aprendi.
Hoje colho do chão, armada com um apanhador de frutas de cabo bem longo. A goiabeira
continua generosa. Eu, mais prudente, continuo inteira.
Porque não me deixo abater
com facilidade. Costumo rir das situações que me acontecem. E a vida, meus
amigos, é feita disso mesmo: goiabas que caem, escadas que balançam e a alegria
de se levantar, sacudir a poeira e fazer a melhor geleia com o que restou.
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